31
Dez 13
Encerro o presente ano, com um texto de reflexão ideológica, em contexto histórico, que considero um ponto prévio indispensável a qualquer debate político sério e rigoroso em Portugal.
Comecemos por um dado tido como adquirido, que é o pressuposto de o PCP não ser um partido democrático.Supremo paradoxo, a força política que mais se destacou na oposição à ditadura salazarista ter como suposto projecto de sociedade um regime à imagem dos regimes comunistas do leste europeu. O partido alega que não importa modelos políticos e que o seu projecto é o de uma democracia, tendo em consideração a realidade do país que somos. Faz a apologia de uma democracia aprofundada, que não se limite aos direitos políticos, mas englobe, igualmente, direitos sociais e económicos. Algo que nos faz lembrar a ideologia do actual governo. Como é sabido, o conceito de democracia, sem direitos sociais e económicos, é um modelo completamente ultrapassado que, nem este governo tem coragem de assumir em público. Como ia dizendo, acerca do PCP, alegarão que o partido se furtou (?) a repudiar o estalinismo e que, ainda hoje, tem algumas posições insustentáveis acerca de alguns regimes, de que é exemplo, a Coreia do Norte.
Façamos uma síntese histórica; o estalinismo era um regime insano e bárbaro, que mesmo durante a resistência ao invasor nazi, alguns funcionários na rectaguarda, dedicavam o seu tempo aos processos políticos de supostos inimigos...comunistas! No entanto, no período da Guerra Fria, os países ocidentais estavam longe de ser paladinos dos direitos humanos, de que o Maccartismo, nos Estados Unidos, é o caso mais óbvio. Outros serviços secretos ocidentais, além da CIA, colaboraram activamente com a Pide e, objectivamente, sustentaram a longevidade da nossa ditadura. Em suma, o perigo comunista justificava todos os atropelos às liberdades fundamentais.
Regressando a Portugal, o argumento que se utiliza para pôr em causa as "credenciais" democráticas do PCP, também serve "como uma luva" à direita portuguesa. Senão, vejamos; antes do 25 de Abril, o PPD/PSD e o CDS/PP eram inexistentes. Mesmo a nível pessoal, os seus fundadores eram, geralmente, pessoas bem instaladas na sua próspera vidinha e, até, se permitiam, vidé a Ala Liberal, uma oposição de camarote, sem consequências. Nunca lutaram por nada, nem arriscaram nada das suas vidas pessoais, como muitos advogados, alguns fundadores do PS, como Mário Soares e Salgado Zenha, que defendiam os prisioneiros políticos nos Tribunais Plenários. Por isso, eu também desconfio das "credenciais" democráticas da direita portuguesa. Este governo, é exemplo disso. Se os comunistas tiveram a sua cartilha, a direita também a teve e, suspeito, que a não leu devidamente. Tresleu! 
publicado por Armindo Carvalho às 10:27

04
Set 13


        - Posso então sair amanhã?
     - Pode. Um pequeno passeio, a experimentar.
     - Não. Se ponho os pés na rua, vou direita à Rainha Santa pagar a promessa que lhe fiz.
     - Ah! fez-lhe uma promessa?
     - Então a quem é que me havia de apegar, na aflição em que me vi?
     - Evidentemente...
     E desci as escadas atordoado, já sem saber se fora eu que curara aquela criatura da sua labirintite, ou se teria sido, de facto, a mulher de D. Dinis.


Miguel Torga, Diário, Volume II
publicado por Armindo Carvalho às 14:45



Voz


Era o céu que sorria nos seus olhos.
Eram junquilhos trémulos aos molhos,
As flores do rosto que eu beijava.
Fresca e gratuita como um hino à lua,
Nua,
Era um mundo de paz que se entregava.

Oh! perfume da Vida! - gritei eu.
Oh! seara de trigo por abrir,
Quem te fez todo o pão da minha fome?

Mas os seus braços, longos e contentes,
Só responderam, quentes:
- Come.


Miguel Torga, Diário, Volume II
publicado por Armindo Carvalho às 14:36

17
Ago 13
Vila Nova, 7 de Novembro de 1934


(Extracto)

Um médico nem sequer pode chorar. Só pode pegar no bracito magro e morno, apertar a artéria inerte e ficar uns segundos a apertar os dentes. Depois sair sem dizer nada.
Quem saberá por aí uma palavra para estes momentos? Uma palavra para um médico dizer a esta mãe, que entregou à vida um filho vivo e recebeu da vida um filho morto.


Miguel Torga, Diário I
publicado por Armindo Carvalho às 08:28

Relato


Senhor, deitou-se a meu lado
E cheirava a maçã como no dia
Em que o primeiro pecado
Furava a terra e nascia.

Era preciso lutar,
Cuspir-lhe o corpo, que vi
E era como um pomar!...
Senhor, eu então comi.


Coimbra, 27 de Fevereiro de 1939
Miguel Torga, Diário I
publicado por Armindo Carvalho às 08:15

Coimbra, 19 de Janeiro de 1939


Enquanto o ia operando, o Fonseca, entre gemidos, foi contando a vida. Isto: aos dez anos morreu-lhe o pai. Aos quinze, a mãe. Aos dezanove, quebrou uma perna e três costelas de um carro de bois abaixo. Aos vinte, teve uma pneumonia dupla. Aos vinte e quatro, morreu-lhe um filho. Aos trinta, a filha. Aos trinta e dois, teve uma febre tifóide. Aos trinta e cinco, morreu-lhe a mulher. E agora, no prazo de cinco meses, quatro operações. No final perguntou:
-É ser homem ou não é, sr. Doutor?
-É.


Miguel Torga, Diário I
publicado por Armindo Carvalho às 08:09

Nocturno


Quatro da madrugada.
Vivos,
sob o arco do céu,
eu
e um cão tão magro como eu.

Sem prévia combinação, sem nada,
tivemos este encontro nesta rua
a esta hora marcada
pelo aceno da lua.

E aqui vamos agora,
num amor vagabundo
de quem não se conhece e se namora,
a encher os dois sòzinhos este mundo.


Miguel Torga, Diário I
Coimbra, 16 de Maio de 1940
publicado por Armindo Carvalho às 07:54



S. Martinho de Anta, 20 de Abril de 1938


Tirei hoje o leite à cabra. Mas a minha mão já não é a mão justa do lavrador que conhece a medida da sua fome. Tirei tudo. Sequei tudo. Deixei o cabrito sem ração. Meu Pai olhou-me desanimado, e a cabra também.


Miguel Torga, Diário I
publicado por Armindo Carvalho às 07:47

S. Martinho de Anta, 18 de Abril de 1938


Tinha setenta e oito anos. Cancro da mama. Sempre a cobrir o peito. Sempre a puxar a camisa suja e a tapar aquilo que foi outrora um seio e é hoje um fole imenso, dentro do qual medra o «bicho». Se tinha frio. Que não, que não tinha frio. Tapava porque tinha vergonha. E corou de pudor a coitada da velhinha.


Miguel Torga, Diário I
publicado por Armindo Carvalho às 07:41

Brinquedo


Foi um sonho que eu tive:
Era uma grande estrela de papel,
Um cordel
E um menino de bibe.

O menino tinha lançado a estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão;
E a estrela ia subindo, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão.

Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel.
E o menino, ao vê-la assim, sorriu
E cortou-lhe o cordel.


Miguel Torga, Diário I
Coimbra, 6 de Fevereiro de 1936
publicado por Armindo Carvalho às 07:33

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