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Mar 10


Serve este texto para abordar um assunto ainda polémico no nosso país e que não tem sido discutido de forma objectiva, pois, as experiências e os sentimentos pessoais têm impedido que se discuta o assunto de uma maneira mais isenta. Refiro-me à colonização e à posterior descolonização.
Em 1961, aquando da invasão de Goa pela India, já a Onu tinha reconhecido o direito dos povos à autodeterminação e as potências coloniais europeias tinham iniciado o processo de descolonização, nomeadamente, o Reino Unido, a França e a Bélgica. Nessa altura, portanto, o colonialismo já não tinha um estatuto jurídico legítimo na comunidade internacional.
Como se viu, em 1961 e, posteriormente, em 1975, com Timor-Leste, Portugal não tinha capacidade política nem militar para se opor a potências regionais, como a Índia e a Indonésia. Para mais, em plena guerra fria, esses países agiram com o beneplácito das superpotências e, no último caso, igualmente, da Austrália.
Quando a guerra eclodiu nas nossas colónias africanas, por essa altura, Portugal vivia numa ditadura e esses territórios eram considerados parte integrante do nosso país. Como é sabido, uma ditadura é avessa a negociações que impliquem cedências. Mesmo, em Portugal, limitaram-se a organizar um simulacro de eleições livres, para que nada mudasse. O nosso país desperdiçou quase 15 anos, em que poderia e deveria ter negociado a nossa saída, numa situação vantajosa, a exemplo de outros países europeus.
Convém lembrar que, em África, não existiam regimes democráticos, havia uma guerra fria e existiam problemas regionais, caso da Rodésia e da África do Sul, que interferiam na estabilidade política de Angola e de Moçambique.
Perante a política de isolacionismo internacional e de querer lutar, a qualquer preço, contra os ventos da História, considero que o Estado Novo é o único responsável pela situação a que se chegou nas nossas colónias e pela forma como a descolonização decorreu. Se tem havido o bom-senso de negociar na altura certa, ter-se-iam evitado muitas mortes e muito sofrimento e não teríamos saído "de mãos a abanar".
Em 1975, no auge da guerra fria e dos conflitos regionais na África do Sul e na Rodésia, e com a oposição interna e a recusa dos militares em combater, o nosso país não tinha outra alternativa nem tinha capacidade política internacional para impor condições. Éramos um mero peão na cena internacional, como se viu em Timor. Por muito que custe admitir aos portugueses que estavam em África, a verdade é que os militares combatiam essencialmente para os proteger e, por eles, morriam e ficavam aleijados, física e psicológicamente. Nessa época, as guerras coloniais já careciam de legitimidade.
No caso concreto de Angola, considero que Portugal fez o que estava ao seu alcance, que foi sentar à mesa os vários grupos políticos e conseguir que assinassem um acordo. Mais não podia ter feito, pois, nem nós, nem ninguém, tinha poder para obrigá-los a cumprir o acordado. Recordo, novamente, que haviam duas superpotências.
Recentemente, na guerra da Bósnia, que os europeus foram impotentes para travar, só os Estados Unidos tiveram a capacidade militar para impor a paz, porque, nesta altura, já eram a única grande potência militar.
Por tudo isto, não considero os políticos que surgiram após o 25 de Abril responsáveis pelo que aconteceu em África. Primeiro, porque não tinham condições internas nem externas para impor o que quer que fosse; segundo, porque, eles próprios eram contra a guerra colonial, como o anterior regime, fora intransigentemente, apologista dela e da manutenção das colónias, a qualquer preço.
Em síntese, como a História o demonstra, sem margem para dúvidas, a nossa descolonização pecou, fundamentalmente, por ter sido tardia.
publicado por Armindo Carvalho às 15:37

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