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Jan 12
   Este romance de Dulce Maria Cardoso, publicado em 2011, é fruto da sua experiência de "retornada" das colónias portuguesas; à distância, as memórias de uma menina narradas por uma mulher.
   A primeira parte ocorre em Angola, em 1974 e em 1975; no início, após o 25 de Abril, era impensável partir e deixar toda uma vida para trás e o futuro daquele país abarcava toda a gente; finalmente, a evidência da guerra e de serem pessoas indesejáveis numa terra que não era deles; não é a decisão de partir mas a urgência de fugir e de sobreviver. De referir que, durante a guerra em Angola, uma das estratégias praticadas foi a vetusta "dividir para reinar"; isso e as interferências externas, estiveram na origem da guerra civil.
Foquemo-nos nas personagens; os pais vieram de uma aldeia qualquer de Portugal, onde nem sequer havia água canalizada e onde eram trabalhadores rurais, sem nada de seu, nem perspectivas de melhor vida. O pai tem a segunda classe e formou-se, segundo o próprio, na "escola da vida"; quando se rendeu à evidência de ter de partir, ou seja, de não ser bem vindo no novo país, a sua atitude é a de terra queimada "deitar fogo à casa e aos camiões"; de quem não retorna "desonra a família" e de quem não aceita combater mais "os soldados portugueses são uns traidores reles". Omite a questão fulcral de os soldados estarem a cumprir o serviço militar obrigatório e de terem, por horizonte futuro, regressarem num caixão ou deficientes; em suma, uma geração perdida.
Devo dizer que é um bom romance, que nos deve interessar por dizer respeito a um pedaço da nossa História e pelo lado humano da questão. No entanto, o enredo omite certas questões, tais como, a ilegitimidade da colonização - éramos uma potência ocupante - que assentava num modelo social, económico e político desigual, ou seja, são os brancos que detinham todo o poder; em síntese, eles mandavam e os negros obedeciam. Para muitas pessoas, como este "pai de família", seria impensável, numa Angola independente, receber ordens de negros, ou seja, inverter as relações de poder. Caso o novo governo angolano não o expropriasse, aceitaria ele viver num país governado por negros?
Para este português, como concerteza para muitos outros que viveram em África, os negros são seres inferiores e deveriam estar agradecidos por lhes termos levado a civilização e por os governarmos, a bem de todos. Quando os negros querem à viva força serem independentes, eles pensam que é como o cão que morde a mão de quem lhes deu de comer e de que eles não têm capacidades para se governarem sòzinhos. Afinal de contas, quem é que descobriu, de repente, que Angola "não era nossa"?
publicado por Armindo Carvalho às 10:49

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