21
Mar 13
Corre, por aí, um abaixo-assinado contra a alegada contratação pela RTP de José Sócrates, como comentador político, por iniciativa de um suposto indignado militante do CDS. O motivo invocado para esta insólita tentativa de silenciamento/censura prende-se com a responsabilidade política do ex-primeiro-ministro na crise financeira que forçou o nosso país a solicitar a ajuda financeira.
Devo esclarecer, desde já, embora isso não pusesse em questão a minha imparcialidade, que não votei em José Sócrates, embora já tenha votado no PS em eleições anteriores. Considero que a sua governação teve aspectos positivos e negativos, embora tivesse omitido, a meu ver, a matriz ideológica do seu partido, daí a minha posição.
Quanto a responsabilidades, assacá-las exclusivamente a José Sócrates é uma mistificação grosseira da realidade. Em termos externos, mal ou bem, o seu governo agiu em consonância com as decisões concertadas e aprovadas nas instâncias europeias. Em segundo lugar, a crise financeira foi exportada para a Europa pelos Estados Unidos; a falha da União Europeia consistiu em não discernir de imediato da sua dimensão e, em consequência, ter reagido demasiado tarde. Em termos de política interna, não é demais recordar que José Sócrates perdera a maioria absoluta; o segundo governo minoritário durou o tempo que o PSD permitiu, ou o tempo que o PSD necessitou para digerir a derrota eleitoral e para esperar por melhores dias. Em consequência, Sócrates governou durante 2 anos, com o acordo ou a abstenção parlamentar do PSD. Os orçamentos de Estado e os PEC's foram negociados com Pedro Passos Coelho e/ou passaram na Assembleia da República com o seu beneplácito.
Chegamos à questão fulcral, que é, saber qual o motivo que levou Pedro Passos Coelho a chumbar o PEC IV, provocando uma crise política, com eleições antecipadas, às quais, Cavaco Silva não pestanejou e precipitando o país numa crise de suposta insolvência. Foi o superior interesse nacional que moveu Passos Coelho ou, tão só, a comezinha conclusão de que o terreno estava maduro para ganhar eleições, nem que, para isso, fosse preciso inventar umas histórias, nunca comprovadas, de que nem sequer havia verbas para pagar salários? Na verdade, o grande trunfo eleitoral de Passos Coelho, para além de mentir descaradamente, foi a instilação do medo e da insegurança nos eleitores; foi o discurso da catástrofe iminente, a demonstrar que os portugueses ainda acreditam em papões!
Quer na minha oposição a José Sócrates quer a Pedro Passos Coelho, é determinante a minha recusa em fulanizar as questões e a enveredar pelo insulto rasteiro, mesmo tendo eu razões pessoais de sobra para o fazer. Faço questão de que o debate político seja feito com "elevação" e na base do conhecimento das coisas, sem demagogia nem populismos baratos. A verdade é que os políticos não são todos iguais; quem o afirma, talvez tenha a pretensão de se habilitar a um cargo governativo, já que, como é elementar, alguém tem de governar e, esse alguém, não tombou do céu; foi eleito pela maioria votante e por todos aqueles que se abstiveram do seu dever/direito de participar da vida colec tiva. Dispensamos, em absoluto, a campanha boçal e rasteira que fizeram a José Sócrates, na primeira eleição e que, a maioria, sabiamente ignorou. Se Sócrates, ou outra pessoa qualquer, for homossexual, isso desqualifica-o para as responsabilidades governativas?!
Em síntese, José Sócrates tem o mesmo direito a ser comentador político que Marcelo Rebelo de Sousa ou Marques Mendes. A respeitar-se o pluralismo de opiniões, todos os partidos com assento parlamentar deverão estar representados a nível de comentadores políticos nos canais televisivos, com especial vinculação, nos canais públicos.

publicado por Armindo Carvalho às 15:50

11
Mar 13


Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.


(Sophia de Mello Breyner Andresen - obra poética)
publicado por Armindo Carvalho às 07:44


Mar,
Metade da minha alma é feita de maresia


De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.


(Sophia de Mello Breyner Andresen - obra poética)
publicado por Armindo Carvalho às 07:39

10
Mar 13
Não creias, Lídia,que nenhum estio
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiámos colher.

Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.

Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto
Que o não-vivido deixa.

Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo.

(Sophia de Mello Breyner Andresen - obra poética)
publicado por Armindo Carvalho às 12:47

03
Mar 13
Em Portugal, em tempos de democracia tutelada e após um período de paralisia e de apatia, geradas pela insegurança no futuro, que a crise económica instalou, a indignação e a revolta têm-se multiplicado, pela cada vez maior percepção das injustiças sociais contidas nas medidas de austeridade e pelo contínuo fracasso das políticas governamentais. Apenas o apoio explícito da troika tem mantido no seu lugar um ministro das finanças que não acerta uma única previsão. 
As manifestações de protesto têm conseguido reunir muita gente das mais variadas origens porque se trata precisamente, tão só, disso mesmo. Um protesto! Não se aborda a discussão de políticas alternativas, pois isso seria um factor de divisão, onde entrariam diversas concepções ideológicas e onde, nomeadamente, nestas multidões, estão votantes dos partidos que nos governam e eleitores abstencionistas, daqueles que delegam a sua responsabilidade nos "outros".
Como criar alternativas é mais difícil e, às vezes, as responsabilidades da situação parecem difusas e diluídas, é mais fácil "cavalgar" a onda populista e "meter todos no mesmo saco". Ora, nesta situação, não há inimputáveis; a começar pelos militantes dos partidos, quando elegem os seus dirigentes e a acabar nos eleitores, quando votam e como votam, ou não votam.
Alternativas não são, em meu entender, os fenómenos políticos da extrema-direita xenófoba nem as vertigens populistas tipo Beppe Grillo. Aliás, as últimas eleições italianas, a exemplo de outras anteriores, merecem a categoria de "case study" de analfabetismo político. Só isso explica fenómenos como o inenarrável Berlusconi e a piada de mau-gosto Beppe Grillo. Podemos seguir as pisadas dos italianos que, desde 1945, parece não terem aprendido nada quanto às questões da governação.
publicado por Armindo Carvalho às 14:48

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