17
Ago 13
Vila Nova, 7 de Novembro de 1934


(Extracto)

Um médico nem sequer pode chorar. Só pode pegar no bracito magro e morno, apertar a artéria inerte e ficar uns segundos a apertar os dentes. Depois sair sem dizer nada.
Quem saberá por aí uma palavra para estes momentos? Uma palavra para um médico dizer a esta mãe, que entregou à vida um filho vivo e recebeu da vida um filho morto.


Miguel Torga, Diário I
publicado por Armindo Carvalho às 08:28

Relato


Senhor, deitou-se a meu lado
E cheirava a maçã como no dia
Em que o primeiro pecado
Furava a terra e nascia.

Era preciso lutar,
Cuspir-lhe o corpo, que vi
E era como um pomar!...
Senhor, eu então comi.


Coimbra, 27 de Fevereiro de 1939
Miguel Torga, Diário I
publicado por Armindo Carvalho às 08:15

Coimbra, 19 de Janeiro de 1939


Enquanto o ia operando, o Fonseca, entre gemidos, foi contando a vida. Isto: aos dez anos morreu-lhe o pai. Aos quinze, a mãe. Aos dezanove, quebrou uma perna e três costelas de um carro de bois abaixo. Aos vinte, teve uma pneumonia dupla. Aos vinte e quatro, morreu-lhe um filho. Aos trinta, a filha. Aos trinta e dois, teve uma febre tifóide. Aos trinta e cinco, morreu-lhe a mulher. E agora, no prazo de cinco meses, quatro operações. No final perguntou:
-É ser homem ou não é, sr. Doutor?
-É.


Miguel Torga, Diário I
publicado por Armindo Carvalho às 08:09

Nocturno


Quatro da madrugada.
Vivos,
sob o arco do céu,
eu
e um cão tão magro como eu.

Sem prévia combinação, sem nada,
tivemos este encontro nesta rua
a esta hora marcada
pelo aceno da lua.

E aqui vamos agora,
num amor vagabundo
de quem não se conhece e se namora,
a encher os dois sòzinhos este mundo.


Miguel Torga, Diário I
Coimbra, 16 de Maio de 1940
publicado por Armindo Carvalho às 07:54



S. Martinho de Anta, 20 de Abril de 1938


Tirei hoje o leite à cabra. Mas a minha mão já não é a mão justa do lavrador que conhece a medida da sua fome. Tirei tudo. Sequei tudo. Deixei o cabrito sem ração. Meu Pai olhou-me desanimado, e a cabra também.


Miguel Torga, Diário I
publicado por Armindo Carvalho às 07:47

S. Martinho de Anta, 18 de Abril de 1938


Tinha setenta e oito anos. Cancro da mama. Sempre a cobrir o peito. Sempre a puxar a camisa suja e a tapar aquilo que foi outrora um seio e é hoje um fole imenso, dentro do qual medra o «bicho». Se tinha frio. Que não, que não tinha frio. Tapava porque tinha vergonha. E corou de pudor a coitada da velhinha.


Miguel Torga, Diário I
publicado por Armindo Carvalho às 07:41

Brinquedo


Foi um sonho que eu tive:
Era uma grande estrela de papel,
Um cordel
E um menino de bibe.

O menino tinha lançado a estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão;
E a estrela ia subindo, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão.

Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel.
E o menino, ao vê-la assim, sorriu
E cortou-lhe o cordel.


Miguel Torga, Diário I
Coimbra, 6 de Fevereiro de 1936
publicado por Armindo Carvalho às 07:33

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