09
Jun 13
A classe média tem um umbigo descomunal; tem uma apetência voraz pelo consumismo e por ostentar publicamente um determinado status. Apesar dos ricos que têm influência e manobram nos bastidores do poder, é a classe média que tem decidido com o seu voto o resultado das eleições das últimas décadas e é, consequentemente, responsável pela situação económica e social actual. A classe média está-se marimbando para os que estão socialmente abaixo dela e apazigua a sua má-consciência contribuindo para os peditórios tipo Banco Alimentar, protótipo moderno da caridadezinha, mero paliativo, que não muda rigorosamente nada, ao ignorar a origem da pobreza e das desigualdades sociais. Dá-se a esmola, para que permaneça tudo igual e benditos os pobres que será deles o reino dos céus. Aliás, a classe média é demasiado instruída para acreditar em coisas do Além. As suas catedrais são os centros comerciais e os hipermercados.
Um exemplo recente de que a classe média tem como objectivo de vida o consumo e/ou o crédito bancário, veio da Islândia, nas últimas eleições. Quando o sistema financeiro que financiava a economia do Estado e dos particulares caiu como um castelo de cartas, os bem-instalados da vida fizeram uma "revolução" e derrubaram o governo dos partidos à direita, que governavam o país há décadas. Para fazer de bombeiro e sanear o esterco, elegeram um governo à esquerda. Passado o furacão e o ai-jesus das nossas finanças e da nossa vidinha, votaram há pouco nos mesmos partidos que tinham sido responsáveis pela má-governação. Ei-los renascidos, branqueados e puros como as crianças à nascença.
A mesma classe média que batia panelas na rua durante o governo de Allende no Chile e, certamente, até terá aplaudido o golpe militar, abençoado pela CIA.
publicado por Armindo Carvalho às 15:05

A cidade de Braga situa-se presentemente no terceiro lugar do "ranking" nacional das cidades mais poluídas, com a agravante de não possuir a quantidade e a qualidade dos espaços verdes de Lisboa e do Porto. Braga desenvolveu-se nas últimas décadas em construção e vias rápidas, menosprezando os pedestres e os espaços verdes e dificultando o escoamento dos transportes públicos. Para além da penosa fluidez dos transportes públicos, das tarifas praticadas e da redução da oferta aos fins de semana, acresce a pouca apetência para o seu uso por parte da classe média. O comboio entre Braga e Porto é a excepção à regra; em comparação com a população de Lisboa e do Porto, não existe em Braga uma cultura do uso dos transportes públicos.
Para obstar à má qualidade do ar nesta cidade e para criar condições para uma melhor fluidez dos autocarros, é imperioso desviar da cidade todo o tráfego automóvel que não se destina à mesma; a construção de uma circular externa seria uma solução.
Devolver os espaços pedonais aos transeuntes passa pela definição de que a regra nesses espaços é a da interdição da circulação de veículos; os casos em que se poderá permitir a mesma serão as excepções, analisadas caso a caso e somente perante a ausência de alternativas. Mais importante que a implementação de estacionamentos pagos, é erradicar os estacionamentos abusivos e ilegais do espaço público.
Porque a qualidade de vida de uma cidade também passa pela questão do ruído, exige-se, tão só, a aplicação efectiva do respectivo Regulamento, a começar pelo exemplo que deverá partir do Município e de uma atitude mais assertiva por parte das autoridades policiais que deverão atuar independentemente de qualquer denúncia particular. Afinal de contas, é um crime público que requer uma atenção mais cuidada. Alguns agentes policiais carecem de formação nesse âmbito e encaram a questão do ruído como uma coisa bizarra e extravagante.
Relaciona-se com estas questões um problema cultural respeitante à educação e formação do cidadão; se terá utilidade alguma intervenção pedagógica, também é necessária, em alguns casos, uma atitude de tolerância zero no que respeita a alguns comportamentos; se alguns denotam ignorância, outros são pura desfaçatez.
publicado por Armindo Carvalho às 12:12

07
Abr 13
Considero que o conhecimento da História é fundamental; dá-nos as coordenadas para nos orientarmos e entendermos o tempo presente. Desconhecer a nossa História contemporânea é como ignorarmos a nossa família, pais e avós, e não saber como viemos parar a este mundo. 
Há demasiada ignorância da nossa História recente, o que até convirá a quem não quer que se saiba certas coisas e, desse modo, mais facilmente se possa branquear, por exemplo, uma ditadura recente. Também há demasiado panfletismo e falta de rigor nos conceitos, o que igualmente contribui para o estado de ignorância de muita gente. Falar de fascismo, a propósito deste governo, carece de um mínimo de rigor; a política deste governo é neoliberal e o sonho dos partidos que sustentam a maioria seria ter obtido 2/3 dos deputados na Assembleia da República de modo a poderem rever a Constituição a seu bel-prazer. Isso não será impedimento de termos eleições, pelo menos, no calendário normal, e de eleger outra maioria.
Voltando aos conceitos e rejeitando qualquer tipo de dogmas que, normalmente, impedem a discussão de ideias e do contraditório, podemos encarar uma questão de variados ângulos, mas uma coisa parece-me evidente e supostamente consensual; a de que uma ditadura é garantidamente uma ditadura, independentemente da sua "roupagem" ideológica. Presentemente, também é consensual, excepto para os neoliberais, que uma democracia têm implícitos direitos sociais e económicos, e não, meramente políticos. A redistribuição da riqueza produzida é-lhes um conceito estranho.
Não haverá um novo 25 de Abril, porque cada fenómeno histórico é fruto de uma específica conjuntura; presentemente, não vivemos em ditadura, nem temos guerras coloniais. Muitos exemplos se poderiam citar a atestar do carácter único e irrepetível de um fenómeno histórico; por exemplo, o nazismo e a revolução bolchevique nasceram de uma situação histórica e de uma sociedade concretas e não são exportáveis, como bem cedo, Estaline descobriu, em oposição a Trotsky. O 25 de Abril também não se exportou, nem para a vizinha Espanha.
Em suma, o conhecimento é a melhor ferramenta que podemos ter para sustentar as nossas opções e, naturalmente, a imprescindível honestidade intelectual; não é a realidade que se adapta às nossas ideias preconcebidas. 

publicado por Armindo Carvalho às 13:22

21
Mar 13
Corre, por aí, um abaixo-assinado contra a alegada contratação pela RTP de José Sócrates, como comentador político, por iniciativa de um suposto indignado militante do CDS. O motivo invocado para esta insólita tentativa de silenciamento/censura prende-se com a responsabilidade política do ex-primeiro-ministro na crise financeira que forçou o nosso país a solicitar a ajuda financeira.
Devo esclarecer, desde já, embora isso não pusesse em questão a minha imparcialidade, que não votei em José Sócrates, embora já tenha votado no PS em eleições anteriores. Considero que a sua governação teve aspectos positivos e negativos, embora tivesse omitido, a meu ver, a matriz ideológica do seu partido, daí a minha posição.
Quanto a responsabilidades, assacá-las exclusivamente a José Sócrates é uma mistificação grosseira da realidade. Em termos externos, mal ou bem, o seu governo agiu em consonância com as decisões concertadas e aprovadas nas instâncias europeias. Em segundo lugar, a crise financeira foi exportada para a Europa pelos Estados Unidos; a falha da União Europeia consistiu em não discernir de imediato da sua dimensão e, em consequência, ter reagido demasiado tarde. Em termos de política interna, não é demais recordar que José Sócrates perdera a maioria absoluta; o segundo governo minoritário durou o tempo que o PSD permitiu, ou o tempo que o PSD necessitou para digerir a derrota eleitoral e para esperar por melhores dias. Em consequência, Sócrates governou durante 2 anos, com o acordo ou a abstenção parlamentar do PSD. Os orçamentos de Estado e os PEC's foram negociados com Pedro Passos Coelho e/ou passaram na Assembleia da República com o seu beneplácito.
Chegamos à questão fulcral, que é, saber qual o motivo que levou Pedro Passos Coelho a chumbar o PEC IV, provocando uma crise política, com eleições antecipadas, às quais, Cavaco Silva não pestanejou e precipitando o país numa crise de suposta insolvência. Foi o superior interesse nacional que moveu Passos Coelho ou, tão só, a comezinha conclusão de que o terreno estava maduro para ganhar eleições, nem que, para isso, fosse preciso inventar umas histórias, nunca comprovadas, de que nem sequer havia verbas para pagar salários? Na verdade, o grande trunfo eleitoral de Passos Coelho, para além de mentir descaradamente, foi a instilação do medo e da insegurança nos eleitores; foi o discurso da catástrofe iminente, a demonstrar que os portugueses ainda acreditam em papões!
Quer na minha oposição a José Sócrates quer a Pedro Passos Coelho, é determinante a minha recusa em fulanizar as questões e a enveredar pelo insulto rasteiro, mesmo tendo eu razões pessoais de sobra para o fazer. Faço questão de que o debate político seja feito com "elevação" e na base do conhecimento das coisas, sem demagogia nem populismos baratos. A verdade é que os políticos não são todos iguais; quem o afirma, talvez tenha a pretensão de se habilitar a um cargo governativo, já que, como é elementar, alguém tem de governar e, esse alguém, não tombou do céu; foi eleito pela maioria votante e por todos aqueles que se abstiveram do seu dever/direito de participar da vida colec tiva. Dispensamos, em absoluto, a campanha boçal e rasteira que fizeram a José Sócrates, na primeira eleição e que, a maioria, sabiamente ignorou. Se Sócrates, ou outra pessoa qualquer, for homossexual, isso desqualifica-o para as responsabilidades governativas?!
Em síntese, José Sócrates tem o mesmo direito a ser comentador político que Marcelo Rebelo de Sousa ou Marques Mendes. A respeitar-se o pluralismo de opiniões, todos os partidos com assento parlamentar deverão estar representados a nível de comentadores políticos nos canais televisivos, com especial vinculação, nos canais públicos.

publicado por Armindo Carvalho às 15:50

11
Mar 13


Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.


(Sophia de Mello Breyner Andresen - obra poética)
publicado por Armindo Carvalho às 07:44


Mar,
Metade da minha alma é feita de maresia


De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.


(Sophia de Mello Breyner Andresen - obra poética)
publicado por Armindo Carvalho às 07:39

10
Mar 13
Não creias, Lídia,que nenhum estio
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiámos colher.

Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.

Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto
Que o não-vivido deixa.

Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo.

(Sophia de Mello Breyner Andresen - obra poética)
publicado por Armindo Carvalho às 12:47

03
Mar 13
Em Portugal, em tempos de democracia tutelada e após um período de paralisia e de apatia, geradas pela insegurança no futuro, que a crise económica instalou, a indignação e a revolta têm-se multiplicado, pela cada vez maior percepção das injustiças sociais contidas nas medidas de austeridade e pelo contínuo fracasso das políticas governamentais. Apenas o apoio explícito da troika tem mantido no seu lugar um ministro das finanças que não acerta uma única previsão. 
As manifestações de protesto têm conseguido reunir muita gente das mais variadas origens porque se trata precisamente, tão só, disso mesmo. Um protesto! Não se aborda a discussão de políticas alternativas, pois isso seria um factor de divisão, onde entrariam diversas concepções ideológicas e onde, nomeadamente, nestas multidões, estão votantes dos partidos que nos governam e eleitores abstencionistas, daqueles que delegam a sua responsabilidade nos "outros".
Como criar alternativas é mais difícil e, às vezes, as responsabilidades da situação parecem difusas e diluídas, é mais fácil "cavalgar" a onda populista e "meter todos no mesmo saco". Ora, nesta situação, não há inimputáveis; a começar pelos militantes dos partidos, quando elegem os seus dirigentes e a acabar nos eleitores, quando votam e como votam, ou não votam.
Alternativas não são, em meu entender, os fenómenos políticos da extrema-direita xenófoba nem as vertigens populistas tipo Beppe Grillo. Aliás, as últimas eleições italianas, a exemplo de outras anteriores, merecem a categoria de "case study" de analfabetismo político. Só isso explica fenómenos como o inenarrável Berlusconi e a piada de mau-gosto Beppe Grillo. Podemos seguir as pisadas dos italianos que, desde 1945, parece não terem aprendido nada quanto às questões da governação.
publicado por Armindo Carvalho às 14:48

27
Nov 12
A onda de violência que percorre vários países de religião muçulmana a pretexto de um filme com origem nos Estados Unidos, similar à que ocorreu aquando das caricaturas de Maomé, leva-me a questionar da natureza da vivência religiosa de um muçulmano e da sua formação enquanto cidadão.
Em primeiro lugar, o conceito de laicismo, ou seja, a separação entre a Igreja e o Estado parece ser-lhes uma noção estranha e ausente; a religião é um veículo de antagonismo político e civilizacional. Em países de religião muçulmana, outras religiões são difícilmente toleradas e o ateísmo ou agnosticismo constitui matéria criminal.
O crente muçulmano não concebe a democracia e a existência de uma sociedade civil cujas expressões de liberdade de expressão e intelectual não são controladas pelo Estado; chega-se assim à situação absurda e surreal de responsabilizar um governo ocidental pela feitura e divulgação de um filme ou de caricaturas publicadas na imprensa, como se o mundo ocidental ainda vivesse na época do Santo Ofício.
A par dos crentes muçulmanos, é de justiça recordar os episódios violentos de intolerância religiosa ocorridos há uns anos em França e nos Estados Unidos protagonizados por cristãos integralistas. Em ambos os casos, recusa-se o direito democrático de questionamento dos dogmas e, em nome destes, pretende-se coarctar as liberdades fundamentais inerentes a uma civilização democrática.
A violência muçulmana não é apenas uma manifestação de fanatismo, de ignorância e de obscurantismo; é igualmente o veículo de frustações políticas e de questões civilizacionais em relação ao mundo ocidental cristão.
A qualquer fanático de qualquer religião, com a certeza de estar imbuído da única verdade, é-lhe inaceitável e ofensivo que se discuta os seus dogmas e que outros façam a apologia de outras "verdades". Ser agnóstico deverá ser um caso de insanidade mental; ser ateu é impróprio de um ser humano, é colocar-se abaixo de cão.
publicado por Armindo Carvalho às 07:25

25
Nov 12
Tendo em consideração que as desigualdades sociais em Portugal são uma realidade estrutural, e não, um fenómeno conjuntural, que a própria "sabedoria popular" contempla, quando diz que hão-de haver sempre ricos e pobres, problema esse que este governo apenas veio agravar, ao exponenciar a existência dos chamados "novos pobres", o que Ramalho Eanes afirmou é correcto mas tardio, porque sempre houveram pobres em Portugal, logo, crianças a passar fome. É caso para dizer que "descobriu a pólvora". Aproveito para chamar a atenção do mediático "empobrecimento" da classe média; o que dirão os pobres que já o eram, a quem se reduzem os apoios sociais? O que se omite, por agenda ideológica ou por ignorância, é que as transferências sociais são um meio de redistribuição da riqueza produzida; que são um instrumento de justiça social, embora sejam um paliativo, pois não erradicam as causas da pobreza e das desigualdades sociais. A manter-se este programa político, não faltará muito tempo para as pessoas se questionarem da utilidade e da legitimidade da democracia.
Uma prova do "sucesso" da revolução cultural chinesa, é que se encherem a barriga dos chineses com bens de consumo, eles desprezam e desvalorizam o facto de não terem direitos políticos.
Faz-se a apologia da democracia a uma pessoa com fome e a viver em condições degradantes?
publicado por Armindo Carvalho às 15:31

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